O treino estava só começando no último sábado, ainda me aquecia no segundo quilômetro, descendo em direção à Praça da Reitoria. Escuto um grupo se aproximando e encosto próximo ao meio-fio para dar passagem.
Era um trio. A moça me passou e se plantou a poucos centímetros na minha frente. Um dos rapazes colocou-se ao lado dela e o último veio ao meu lado. Achei aquilo incomum, mas tudo bem. Terminada a descida, viramos à esquerda na fonte para ingressar na praça. Percebi que, no piso plano, os três estavam mais lentos do que eu e resolvi me “desencaixotar”.
O gesto parece ter sido uma ofensa para os meninos. Comecei a ouvir gracejos, risinhos e piadinhas na entrada da “Bolinha”. Mas como não estava disposto à confusão logo cedo, acelerei e deixei os mal educados para trás. Mas eles queriam graça e os dois garotões me alcançaram e se posicionaram ao meu lado, no mesmo ritmo.
O objetivo era provocar. Mais atrás a mocinha gritava: “Vão embora, podem ir!” E a dupla cochichando e caçoando. Aumentei a velocidade e os dois também. Estávamos na metade da praça.
Depois de 200 metros o gordinho parou, ou resolveu esperar a companheira. O outro optou por “sprintar”. Sabia que a estratégia do fanfarrão iria durar um quilômetro e fiz questão de colar na bunda dele, a centímetros de distância. Fui até o fim pondo pressão, provocando mesmo. O moleque não escapou e fechamos a brincadeira a 3’40” os 1000 metros. O sujeito atravessou a Avenida da Raia, ficou para trás e eu segui em frente para rodar o restante do meu treino. Não disse uma palavra aos três, não os provoquei em momento algum.
E por que estou contando esse fato, dividindo essa experiência incomum com os leitores do blog? Porque a corrida tem recebido milhares de novos praticantes todos os anos e infelizmente nem todos sabem se comportar ou tem educação suficiente para conviver em grupo.
Os veteranos sabem que na corrida de rua o grande adversário é o seu cronômetro, no máximo elegemos um coelho em uma prova ou treino e buscamos motivação para chegar ao fim junto, ou antes dele. Mas menosprezar, humilhar, zombar, não são os princípios que regem o corredor de rua, que é um sujeito solidário, camarada, companheiro, amigo.
Esses garotões ainda tem muito a crescer, talvez vão apanhar da vida e aprender pelo caminho mais duro.
Outro motivo que me fez refletir sobre o episódio: estamos em um momento crucial na relação dos corredores e ciclistas com os administradores do espaço público. Há um processo em andamento entre a prefeitura da USP e a Associação dos Treinadores de Corrida tentando organizar e melhorar a relação entre comunidade acadêmica, sociedade e esportistas. Episódios como este servem apenas para mostrar que nós, usuários do espaço público, precisamos repensar muitas atitudes e tomar um banho de cidadania e educação. Só assim teremos uma convivência melhor. Sá assim seremos um país melhor.
Coma bem, corra bem, viva bem!





