SOFRIDO NÃO É MELHOR

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De cara afirmo que desafiar uma maratona pode custar caro. Muito caro. E não que o meu objetivo fosse afrontar a rainha das provas. Como disse no post anterior, fui a Argentina apenas para completar os 42 quilômetros por causa da minha preparação precária nas quatro semanas anteriores por conta de uma lesão bem chata no pé.

No jantar da sexta-feira, já na capital argentina, o Cláudio Castilho foi muito claro: “Saia devagar, economizando, para poder chegar inteiro no quarto final da prova”.

Na hora da largada a temperatura era de 18 graus, confrontando a previsão da semana que afirmava que às 7h30 da manhã do domingo teríamos em torno de 15 graus e temperatura máxima de 22. Mas aquilo não chegava a assustar porque o céu estava bem encoberto, era possível sentir gotículas de uma garoa portenha.

Nove mil pessoas alinhadas para a maratona mais importante da América do Sul. E ali, percebendo o semblante de cada um, me lembrei de uma conversa que tive com o Sérgio Xavier em um longo que fizemos na USP e concordei com ele. O Serginho disse que acordar em um domingo para fechar uma prova de 10K é algo relativamente normal na vida de muita gente. Quantos casos não conhecemos de pessoas que simplesmente levantaram numa manhã de domingo e disseram “Vou correr essa prova de 10K”. E fizeram.

Com a maratona é diferente. Ali não tem aventureiro. Ali há estórias de superação, dedicação, comprometimento. Histórias de vida. Ali se enxerga o que a corrida faz na vida das pessoas.

A largada foi dada às 7h34. Demorei dois minutos e meio para passar pelo tapete. Os primeiros quilômetros, mesmo com as largas avenidas de Buenos Aires, ficam um pouco cheios. Mas dá para ouvir o Elvis Presley portenho, os Beatles latinos, tudo isso no primeiro quarto da prova. Mais a frente ainda tem casal dançando tango, Michael Jackson albino, escola de samba argentina(!) e pouca animação nas ruas. Essa era uma das promessas da prova argentina, mas talvez por ser feriado no país e a cidade estar com menos gente, faltou incentivo do povo, que estava basicamente concentrado no centro da cidade.

Logo de cara encaixei um ritmo de 4m50s por quilômetro. Sabia que aquilo não era bom porque estava há um mês sem correr, mas me sentia muito bem, correndo solto. Ao contrário do que pregam os treinadores, costumo fazer o inverso. Saio mais forte na primeira parte e administro na segunda. Como estava bem, acreditei que a estratégia estava pronta para ser repetida mais uma vez.

Passei a Meia para 1h44m, e tirando uma pedra em que pisei exatamente no ponto da lesão do meu pé e que trouxe uma dor insuportável, a ponto de eu cogitar parar ali mesmo, o resto caminhava muito bem. No quilômetro 19 a dor já havia diminuído.

Mas foi a partir da metade da prova que a cenário começou a mudar. Timidamente o sol resolveu se mostrar e aos poucos deixou a vergonha de lado e escancarou os raios pelo percurso árido da região do porto. Aliás, a primeira parte da prova é muito boa, mas a segunda metade é um pouco enfadonha, com aquelas retas longas, visual não tão belo e pouca gente nas ruas.

Consegui segurar o ritmo até o 30º quilômetro, e então comecei a sentir fome, algo que raramente acontece comigo. Tinha gel sobrando e resolvi antecipar o uso e ainda comer as frutas oferecidas pela organização. Isotônico é outra coisa que não gosto de tomar, mas já estava sentindo necessidade, apesar das cápsulas de sal terem sido devidamente ingeridas.

Nos postos de água – diga-se de passagem, servidas a vontade por voluntários atenciosos – uma garrafa já não me satisfazia. Agarrava logo duas, tomava uma e a outra usava para baixar a temperatura do corpo.

A condição do tempo em Buenos Aires foi totalmente atípica do que havia sido previsto. Ao meio-dia a temperatura chegou aos 29 graus com umidade relativa do ar de 85%, conforme o Cláudio Castilho apurou no serviço meteorológico local. Uma verdadeira bomba relógio.

Por volta das 10h30 já era possível ver muita gente caminhando. Eu diminuí o ritmo e comecei a rodar a 5m10s, 5m15s, 5m30s e aquela sensação de que o combustível está desaparecendo rapidamente. Procurei me concentrar, manter o foco, pensar nas coisas positivas. A perna vai pesando e a cabeça precisa trabalhar muito mais. No quilômetro 40 um número incrível: 7m34s de pace.

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Puxei as últimas reservas disponíveis no corpo, respirei fundo, mentalizei dois quilômetros dentro da USP e segui. A imagem do pórtico de chegada é a última lembrança que tenho na mente e logo depois a ajuda do staff da prova. Apaguei, voltei, me levaram para a tenda, fui hidratado, estabilizado e liberado para comemorar a minha primeira maratona. que não gostaria que tivesse terminado dessa maneira, mas que serviu de lição e aprendizado.

Ao final de toda essa aventura, o Garmin apontou *3h52s09. Para uma estreia está bom. Mas se tivesse seguido com meus treinos p último mês e tivesse mudado a estratégia da prova, como alertou o Cláudio Castilho na véspera, certamente teria feito um tempo melhor.

Para um projeto como esse muita gente tem importância fundamental. A começar pela família. Ter a esposa treinando junto faz uma baita diferença para poder entender e compreender tudo o que envolve o processo para cumprir os 42K. À Larissa e ao Murilo, meus filhos, um agradecimento especial por terem “perdido” os pais nos últimos meses mas que compreenderam, ajudaram, incentivaram, foram filhos e parceiros do projeto. Aos meus pais, que ajudam a cuidar dos meus filhos na minha ausência e muito mais.

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Ao Mário Mello que me iniciou nos treinos de corrida 10 anos atrás e ao meu atual treinador, o Cláudio Castilho. Dois profissionais exemplares, dignos da profissão que abraçaram. O Cláudio esteve semre presente, sempre disposto a orientar e corrigir, seja por telefone, email, sinal de fumaça… Valeu, Claudião! E a toda equipe S&P, Leandro, Nath, Balbino. Time espetacular.

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O Dr. Gustavo Maglioca, que esteve a todo instante pronto para ouvir meus relatos de incômodo e que foi extremamente ágil ao determinar a lesão que eu tinha e iniciar o tratamento. O Doc sabe muito e tem cabeça de corredor, isso faz diferença!

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Sem poder correr, fui para a piscina com a Roberta Rosas. Apesar das poucas aulas de deep running, a mulher do Marcos Paulo não deixou a lesão me desanimar.

À Tânia Rodrigues que cuidou da nutrição e conseguiu a proeza de trocar minha massa gorda(?) por massa magra.

À Joelma Silva, que sabe tudo e mais um pouco de massagem desportiva. As mãos dela salvam qualquer um dos incômodos que o treinamento sempre provoca.

Ao meu companheiro de rádio Bandeirantes, Sérgio Patrick, pelos ajustes de escalas (rs) e bate-papos sobre os treinos. Ter um companheiro de trabalho que também corre ajuda muito a entender as nossas necessidades. Valeu, Serginho!

Aos ouvintes do Fôlego, leitores do blog, amigos reais, virtuais, sinceros, parceiros, obrigado pelas mensagens de incentivo e apoio.

Antes de correr minha primeira maratona em Buenos Aires, já havia decidido que voltaria para a distância por uma razão simples: a lesão no pé me impediu de fazer o treino direito, me atrapalhou no final e por causa disso vou encarar outra treinando como se deve e sem lesão.

Em breve tem outra maratona.

O desafio está lançado. Lance o seu também.

Coma bem, corra bem, viva bem!

* Corrigido pelo tempo oficial da organização.

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30 Respostas para “SOFRIDO NÃO É MELHOR

  1. Parabéns, Capri. Uma estréia em maratonas é sempre difícil. Como encaixar o ritmo? Tá fácil, mas vou sofrer adiante? Tá difícil, então estou errado ou é o cansaço natural? Continuo assim, ou não? É impossível dizer se você teria ido melhor ou pior ou igual se tivesse feito um ritmo diferente antes, deixado algo pra depois ou não. O que importa é que, apesar dos pesares no final – algo natural em maratona, né? – você fez uma excelente marca, um tempo que eu mesmo demorei 09 maratonas para alcançar e que só superei justamente em Buenos Aires. Parabéns!!!

  2. Parabéns Capriotti!
    Estava ansioso para ler esse post.
    Moro em Curitiba, mas acompanho o programa Fôlego pela web todos os domingos. Ouvi todos os seus relatos até chegar o grande dia que foi o domingo passado.
    Nos próximos dois meses estarei correndo 3 meias nos EUA. Esse será o meu grande desafio do ano.
    Quero ganhar bastante “cancha” para estrear bem na maratona de BsAs 2014.
    Muito obrigado por inspirar e motivar todos nós a treinar e correr cada vez mais.
    Grande abraço e boa recuperação!

  3. Parabéns Capriotti!!!
    Ótimo tempo…A Maratona de Porto Alegre é uma boa pedida, essa será minha próxima, a minha primeira foi Maratona de São Paulo agora em 2013.

    Parabéns
    Mauricio Silva
    Trilopez

  4. Grande Capriotti! Primeira maratona com 3:49 e ainda contundido? Parabéns vc foi ótimo! Olha o meu caso fiz 4:11 em SP semana passada. Esperava fazer menos de 3:45 mas fazer o que? Senti e senti muito o final da prova. Vc fez km acima de 7? Fiz os 4 ultimos acima de 8! Com certeza, numa prox.oportunidade mais experiente e livre de contusão, vc fará melhor, ou então fará o mesmo tempo mas sem sofrimento! PARABÉNS!

  5. Capriotti,
    Parabéns pela sua primeira maratona. Em minha opinião, correr uma maratona é como estreiar nos 10km sendo um iniciante. Iniciante mesmo, aquele que mal corre os 6km bem! Talvez você não entenda tão profundamente pois não convive tão diretamente com os novatos que tem as mesmas inseguranças e anseios mesmo na distancia que para nós não nos causa mais nenhuma ansiedade ou frison!
    Mas para nós que já corremos tantas meias e 10kms, fica a duvida de como seria a maratona? Muitos acham que por fazerem uma meia e chegarem inteiro fica facil fazer uma maratona. Sempre digo aos meus alunos que o corredor que diz que foi fácil, esta mentindo e tenho plena convicção disso. Por este motivo que respeito muito qualquer maratonista. Claro que alguns tem mais facilidade outros menos, mas dai a ser tranquilo, só sabe quem já fez!
    Parabéns mais uma vez por entrar, como diz o Valdir Gomes, maratonista da equipe, do seleto grupo de corredores de maratona.
    Que possa fazer outras, e cada vez melhor, embora a idade vai passando e você vai ver como pesa…principalmente por a cada uma nova maratona você poder ganhar mais experiencia e poder respeitar a distancia cada vez mais, o que acaba se tornando um grande aliado do sucesso.
    Grande abraço
    Mario Mello

  6. Valeu Capri. abs. Odinei

  7. Entendeu o que é maratona, Capri? Cabeça, corpo e espírito! Daí o fascínio, daí a emoção de chegar. Que venham muitas mais, cada uma com suas historias! Parabéns pela sua estreia, performance nota 10!

  8. Que seja a primeira de muitas, parabéns !!! e que tal seguir as orientações do treinador 🙂 ?!!!

    Alex Rabelo

  9. Olá Capriotti,

    Muitas vezes falamos de superação, de conseguirmos tempo para treinar, de enfrentarmos as dores, de conciliar trabalho , atenção à família, etc. Temos histórias recentes de atletas profissionais que nos deram exemplos como esse. Você nos mostrou que atletas Amadores (isso mesmo com A maiúsculo), também podem enfrentar as diversidades, superá-las e realizar seus desafios. Por tudo isso, quero te agradecer pela inspiração e de alguma forma transmitir a confiança para aqueles que estão buscando seus desafios.

    Parabéns !!!!

  10. Parabéns Capriotti!!! A luta é constante e a vitória é certa… Tendo essa garra, força, coragem…, e essas pessoas maravilhosas que te apoiam é muito importante , derrota não existe…porém só vitória ao seu redor!!! Vitórias conquistadas não só pela maratona mas sim, pelo carinho de todos!!! Estamos sempre torcendo por você.. Vc merece e muito,… lembre-se que não existe vitória sem ter lutas. Por isso que chegou até aí!!! Continue sempre assim… Um gde abraço de seus primos, Marli e Marcio Bordini – Santa Adélia – SP

  11. Parabéns Capri, é muito bom saber que tem ” mortais” iguais a mim que querem fazer uma Maratona, pois sempre converso com Maratonistas que falam que é fácil, é 80% cabeça , eu acredito que seja 85% treino e 15% cabeça, você acabou que me confirmar isto, vou sempre lembrar deste comentário e usa-lo como experiência.´
    Obrigada.
    Bjs….

  12. A lesão não machuca só o corpo, Capri. Ela confunde a cabeça. A gente treina meses para preparar o corpo e ter tudo sob controle. A lesão desconstrói. Ela rouba de nós o controle da situação. Quando, como e por quanto tempo a dor ficará? Não sabemos. Minha maratona em Berlim não foi muito diferente da sua, estava sem o controle. Mas foi uma das que mais aprendi. E ela me provocou, quero uma outra, sem lesão pra incomodar. Nos encontramos na USP.

  13. Capri, Parabéns! Por mais dolorosa que foi essa chegada ela deve ser reconhecida. Agora vamos superar isso pensando em outra rs!

    Abraços!

    Nath

  14. Capriotti,
    A história da minha Maratona de Buenos Aires é mais ou menos parecida com a sua.
    Mesmo sabendo que eu não estava bem preparado como estive em outras, e, ainda convivendo com uma fascite plantar nas ultimas semanas de treino, espera poder completá-la sub 4h.
    Pois bem, a despeito da alta umidade (senti bastante tb), consegui manter meu plano de voo (sic) até o km 32 +/_, qdo então minha fascite deu as caras com força.
    Aí o jeito foi se conformar e terminar a prova alternando trote e caminhada…mais caminhada do que trote.
    Mas é assim mesmo…..como dizia Fangio, “Carreras son carreras”!

    Parabéns, abraços e boa sorte nas próximas que virão.
    @marcoprimeiro

  15. Capriotti, parabens , ler o seu relato me fez sofrer e correr junto , excelente ! e parabens pela conquista , vc se superou e como o preparo psicologico ajudou ! bons treinos para a proxima, abraco Isabel

  16. Isabel,
    É uma experiência de vida fantástica, você sabe bem disso.
    Abraço

  17. Inspirador e um baita incentivo pra quem almeja os sonháveis 42km. Deu vontade de te oferecer uma água e uma fruta só de pensar no sofrimento haha

    Parabéns e assim como muitos que li aqui, um dia também chego lá!
    Feliz em ter encontrado o seu blog! 😀

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